Sola Fide Justificate

Sola Fide Justificate

Por Box95 | Um Clube de Assinaturas Cristão!      07/08/2019 11:18:49    

Embora a reforma tenha começado oficialmente no dia 31 de outubro de 1517, quando o monge agostiniano Martinho Lutero afixou na porta da Igreja do Castelo, em Wittenberg, suas 95 teses, foi somente entre os anos de 1518 e 1519 que ele chegou a um entendimento maduro daquilo que ele mesmo denominou como sendo um dos temas mais vitais das Escrituras – e tão revolucionário para a teologia cristã. O artigo pelo qual a igreja cai ou fica de pé: sola fide justificate, a justificação pela graça somente pela fé. 

 

Antes disso, Lutero vivia atormentado pela noção de que o Deus justo e santo das Escrituras o julgaria e o condenaria, e que ele jamais seria capaz de satisfazer a justiça de Deus. Nisso estava certo. Por essa razão, ele sofria muito com sua consciência sensível e detestava o texto de Romanos 1.17, mas quando finalmente entendeu que essa justiça é a justiça que Deus provê, em Cristo, foi como se uma luz do céu invadisse seu ser e inundasse o seu coração com consolo e alegria. 

 

Mas logo a questão da justificação pela fé encontrou grande efervescência nos debates que se seguiram com a igreja romana, pois o catolicismo medieval falava em uma fé que cooperava com Deus, e que a justiça de Deus era assim infundida – uma linguagem da medicina - por Deus aos homens por meio de boas obras e da ministração da igreja. O homem era considerado enfermo por causa do pecado. Nos documentos católicos daquele período, há uma afirmação que diz: “a igreja é a hospedaria e a enfermaria daqueles que desejam ficar bem. Sua enfermidade, porém, poderia ser curada através das ministrações da igreja, começando com o batismo”. No catolicismo romano combatido por Lutero, havia um entendimento de que o homem possuía algum mérito que cooperava para sua justificação. Isso era chamado de mérito de congruo – que significa o mérito imperfeito, de um pedinte – mas ainda um mérito. Por isso, quando o sacramento da Eucaristia era celebrado, havia um entendimento de que uma graça especial de Deus agiria em quem tivesse, em seu coração, a disposição de recebê-la. Esta eficácia do sacramento para infundir graça era chamada de ex opera operato. 

 

Martinho Lutero rompeu com a linguagem da medicina e passou a usar uma linguagem forense da imputação. Ele entendeu, finalmente, que a justiça de Cristo é imputada naquele que crê e é justificado diante de Deus pela fé. Ele chamou isso de “doce troca”. Embora nossos pecados não sejam totalmente removidos de nós quando cremos em Cristo, a justiça dele nos é imputada e somos declarados justos, não pelos nossos méritos ou pelo que fazemos, mas pela graça de Deus em nos dar o que não merecemos. Sobre isso, Lutero disse o seguinte: 

 

“Portanto, meu querido irmão, aprenda Cristo e o aprenda crucificado; aprenda a orar a ele, perdendo toda a esperança em si mesmo, e diga: Tu, Senhor Jesus, és minha justiça, e eu sou teu pecado; tomaste em ti o que não era e deste-me o que não sou.”

 

500 anos se passaram e esta matéria se faz mais urgente do que nunca. Entender a justificação pela graça mediante a fé ajudará a corrigir, por exemplo, os extremos do legalismo e da pregação moralista, os quais impõem pesados fardos sobre o cristão e exigem dele uma performance que faria inveja aos fariseus dos dias de Jesus, desconsiderando completamente a noção de que em Cristo temos tudo quanto precisamos para receber a graça do perdão de nossos pecados e viver uma vida cristã plena e cheia de significado. 

 

Lutero ainda nos ajuda a corrigir a noção tão difundida pela diabólica teologia da prosperidade de que podemos trocar nossa fé e fidelidade a Deus por ganhos materiais, saúde e realização pessoal. Nesse sentido, até mesmo a detestável venda de indulgências do catolicismo medieval se coloca como algo superior à teologia da prosperidade, pois naquela se partia da noção de que o pecador deve algo a Deus, enquanto nesta ensina-se que Deus é quem deve algo ao pecador. Crer que Jesus conquistou tudo quanto precisamos diante de Deus na cruz ajuda a orientar nossa fé somente naquilo que ele fez e naquilo que ele nos deu, e a alimentar a esperança de que o maior bem que poderíamos receber de Deus é Cristo mesmo, que nos coloca em paz com Deus. 

Esta, afinal, é a grande mensagem de Lutero nos seus dias e deveria ser a nossa bandeira, também em nosso tempo. Só Cristo justifica e ele o faz de graça, por graça e pela graça e nós, como quem estende as mãos para receber uma dádiva, nos apropriamos da maior de todas as bênçãos somente pela fé. 

 

Que Deus nos abençoe e nos ajude a viver pela fé somente, em Cristo somente. 

 

Tiago Santos

Co-fundador, Diretor Pastoral, e Professor do Seminário Martin Bucer; Editor-Chefe da Editora Fiel e Presbítero na Igreja Batista da Graça em São José dos Campos, SP. 

 

 

  

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