​Resenha de Inteligência Humilhada - JONAS MADUREIRA

​Resenha de Inteligência Humilhada - JONAS MADUREIRA

Por Box95 | Um Clube de Assinaturas Reformado!      29/06/2018 17:53:27    
O livro Inteligência Humilhada, escrito por Jonas Madureira (Vida Nova), é uma jornada. Durante o percurso, o autor convida o leitor a enfrentar desde questões fundamentais como “haverá algum conhecimento no mundo que seja tão certo que nenhum homem razoável possa dele duvidar?” (citação de Bertrand Russell na página 21) até questionamentos com implicação ética relativos ao problema do mal, passando pela epistemologia.

Todo o trajeto proposto pelo autor tem como finalidade tecer o fio condutor de seu tema principal: inteligência humilhada. Como ele deixa claro no início do livro e em entrevistas anteriores ao lançamento da obra, o conceito “inteligência humilhada” pode ser uma construção própria, mas a ideia que ele expressa está presente desde há muito na tradição cristã ortodoxa. Pelo menos desde Agostinho. Como Jonas explica, ele falou sobre inteligência humilhada pela primeira vez em 2010, a despeito de o livro ter sido lançado em 2017. Suas ideias surgiram de leituras do livro X das Confissões de Agostinho de Hipona (p. 23), o que fica bastante claro ao longo de sua argumentação. Como fica evidente na entrevista concedida ao canal da Box95 no YouTube e no próprio livro, suas fontes abrangem de Agostinho até Dooyeweerd, passando por Anselmo da Cantuária, Calvino e Pascal, entre tantos outros (p. 29).

Portanto, esse livro é o resultado de no mínimo sete anos de pesquisa e depuração. O tempo dedicado ao texto e às ideias fica muito evidente em vários aspectos (obviamente, a qualidade do material não é resultado apenas do tempo de dedicação, mas especial da habilidade intelectual do autor). A ordem lógica dos temas propostos é impecável, o didatismo ao tratar de temas complexos é notável e o cuidado no uso de cada palavra é impressionante, como se cada frase fosse milimetricamente medida. Nenhuma palavra é desperdiçada. Entre tantos aspectos positivos, destaca-se a proposital fuga do academicismo.

Muito embora todo o livro seja dedicado à elaboração do conceito “inteligência humilhada”, na página 28 há uma excelente definição: “a inteligência humilhada é a consciência ferida pela Palavra, é o coração ferido, porém grato, pela dádiva da revelação, é o intelecto estendido a ponto de encontrar Deus quando sobe aos céus e quando faz a cama no mais profundo abismo”. Para obter êxito em aplicar no próprio livro as ideias que o autor elabora, ele lança mão do que denomina fazer “teologia em segunda pessoa”, quer dizer, “o pensamento genuinamente teológico só consegue respirar e sobreviver em uma atmosfera de intenso diálogo com Deus. Ou seja, a teologia, antes de indagar, precisa aprender a orar, e orar outra coisa não é senão ouvir e responder a Deus” (p. 32). Nesse aspecto, Jonas se coloca ao lado de Agostinho, no sentido de não permitir que seu gigantismo intelectual o afaste do primordial: a Escritura. “Sua forma de pensar – embora Agostinho sustentasse o diálogo com as diversas correntes filosóficas de seu tempo e fosse bastante influenciado por elas –, se constitui sobretudo a partir da apropriação do discurso bíblico. Agostinho pensa biblicamente, o que é bastante diferente da mera citação de textos bíblicos para validar argumentos” (p. 38). A descrição que Jonas faz do labor teológico de Agostinho evidentemente se aplica ao seu próprio trabalho. Considerando sua temática central, ele foi muito feliz na empreitada de fazer uma “teologia perante Deus”.

Após lançar as bases do discurso, o autor lança as bases epistemológicas dos argumentos com o que ele chama de “conhecimento na desgraça”. Basicamente, “toda busca por conhecimento ou sabedoria é, de certo modo, uma maneira de lidar com a angústia referente ao sentido da vida e à experiência do vazio existencial que gera o clamor por salvação” (p. 72), o que torna a abordagem epistemológica indispensável.

As bases fixadas por Jonas são no sentido de enfrentar o problema da possibilidade de conhecimento de Deus não apenas sob a perspectiva cristã, mas monergista. Com isso, sua resposta busca coerência com seu argumento centrado na inteligência humilhada: “o paradigma da humilhação intelectual exige, portanto, uma política de afirmação da autoridade da revelação, pois não há nada em nós que nos torne suficientemente capazes de conhecer a Deus por nós mesmos: todo conhecimento que temos de Deus depende do Deus que se revela. É por isso que a inteligência humana está sob a condição de humilhação. Ou seja, nossa inteligência jamais teria sido capaz de inventar algo como o ‘cristianismo’” (p. 72).

A despeito da incapacidade da mente humana decorrente da Queda, que a torna dependente da revelação divina, o homem precisa lidar com a realidade de que foi feito para Deus. Novamente partindo de Agostinho, Jonas afirma: “o coração encontrará repouso apenas quando reencontrar sua origem e, ao mesmo tempo, seu destino último. Em outras palavras, Deus nos criou como uma flecha lançada em sua própria direção, o que significa que o ‘coração inquieto’ não é outra coisa senão uma disposição ou inclinação natural que movimenta o homem todo para Deus, sua origem e seu destino. [...] Embora a Queda não seja capaz de destruir essa inclinação natural do coração, ela é capaz de alterar sua direcionalidade, fazendo com que o homem todo se afaste do fim último para o qual foi criado. [...] Quando pecou, o homem não acertou outro alvo; ele errou o único alvo disponível” (p. 75-77).

Nesse contexto, é inevitável considerar os efeitos noéticos da Queda, o que significa que “a Queda não interferiu apenas nos âmbitos material e volitivo dos seres humanos, mas também em sua faculdade intelectual. [...] Nossa inteligência, por mais que seja uma das expressões mais fortes e significativas da imago Dei (isto é, da imagem de Deus), ainda assim, não está blindada contra os efeitos intelectuais da Queda. E, por esse motivo, não podemos simplesmente por nós mesmos, ou seja, pelo nosso puro pensamento, chegar ao conhecimento de Deus. Estamos perdidos e não sabemos o caminho de volta” (p. 80). Somos, portanto, inteiramente dependentes de Deus e de sua ação monergista. Definitivamente, nesse cenário apresentado pelo autor, não há espaço para sinergia da salvação. Essa condição humana explica o estado atual do homem e o estado atual da filosofia humana, pois os homens estão mais perdidos quando não sabem que estão perdidos, quando estão miseravelmente cegos, incapazes de contemplar o verdadeiro Deus. “A luz não basta para quem está mergulhado na cegueira” (p. 93).

A citação que Jonas faz de Pannenberg (que também recorre a Agostinho) a esse respeito é certeira: “Por isso, conforme análise perspicaz de Agostinho, as pessoas são mais miseráveis justamente quando nada sabem de sua miséria, e isso não necessariamente na desgraça, em doença ou na angústia da morte, mas em face dos bens deste mundo. Quando aí esquecem de Deus, tornam-se por isso infelizes em meio a bem-estar e abundância, experimentando sua vida como vazia e sem sentido” (p. 95).

O tom da crítica de Jonas Madureira conduz às origens da expressão moderna de miserabilidade humana, e ele o faz desnudando a arrogância e a vaidade da filosofia considerada “livre-pensamento”. Nesta crítica, Jonas lança mão de uma fina ironia crítica para rebater seus oponentes intelectuais, desprezando seu edifício filosófico sem perder a compostura. Ele faz o que poderíamos chamar de “bater com luva de pelica”, ou seja, bater sem perder a elegância. Ao dizer que “o livre-pensador é um especialista em cosméticos”, ele ressalva: “para os gregos, cosmo é tudo o que ornamenta, embeleza, organiza, oculta ou esconde o caos. Daí ‘cosmético’ ser o adjetivo mais apropriado para designar os produtos de beleza que prometem esconder o ‘caos’ dos rostos mais tristes. O que estamos afirmando, portanto, é que o livre-pensador é um maquiador da realidade” (p. 105). Verdade seja dita! “Não existem pensamentos livres. [...] Nossa inteligência não foi feita para ser livre. Ela sempre está submissa a alguma cosmovisão. Se Deus não é o Senhor de sua mente, pode ter certeza de que ela terá outro senhor” (p. 108-109). Bingo!



No capítulo seguinte, o autor recorre novamente a uma ironia ao intitulá-lo “O Deus humilhado”, sendo que nesta parte ele se dedicará a enfrentar, corajosamente, o problema do mal. Lançando suas premissas ao combate de argumentos que questionam a bondade ou onipotência de Deus, o autor elabora um dos trechos mais brilhantes do livro ao explicar o sentido do termo grego phronesis a partir de Filipenses 2.7, de modo que “nisto consiste a phronesis de Cristo: que o Cristo preexistente é um ser cujo amor se expressou de modo incomparável ao ‘esvaziar-se a si mesmo’” (p. 155). É na humilhação de Cristo que Deus manifesta sua glória da melhor forma: “Calvino afirmou que ‘em todas as criaturas, tanto elevadas quanto humildes, a glória de Deus resplandece, porém em parte alguma resplandece mais gloriosamente do que na cruz’” (p. 156).

E a ironia está em justamente, depois de discorrer sobre o Deus humilhado, denominar a próxima seção de “O Deus da Bíblia é cruel?” (p. 157/176), concluindo, “a explicação que condiz com a fé cristã é aquela que sustenta a crença em Deus Pai, todo-poderoso, a despeito da presença do mal no mundo, mesmo porque somente a crença em Deus Pai, todo-poderoso, pode dar para o cristão a esperança de que o mal será destruído na consumação dos séculos”. Até chegar a essa conclusão, o autor demonstra profunda habilidade filosófica e vasto domínio bibliográfico, citando com propriedade C. S. Lewis, D. A. Carson, Dietrich Bonhoeffer e Alvin Plantinga. Recursos muito bem administrados para combater os argumentos de Richard Dawkins, Ludwig Feuerbach e companhia.

Após tratar biblicamente da teoria do conhecimento e, de forma muito pessoal (teologia na segunda pessoa), do conhecimento de Deus, o autor investe no autoconhecimento (ou teologia do autoconhecimento), categorizando, logo no início, que o conhecimento de Deus e de nós mesmos são coisas correlatas, com respaldo em Agostinho e Calvino, citando este último: “’Quase toda a suma de nossa sabedoria, que deve ser considerada a sabedoria verdadeira e sólida, compõe-se de duas partes: o conhecimento de Deus e o conhecimento de nós mesmos. Como são unidas entre si por muitos laços, não é fácil discernir qual precede e gera a outra’ (Institutas I.1.1). Em outras palavras, o conhecimento de Deus e o conhecimento de nós mesmos são realidades indissociáveis, como são, por exemplo, a rosa e a cor vermelha da rosa: coisas inseparáveis, porém discerníveis” (p. 191).

Neste ponto está a parte do livro que mais me emocionou. Ao tratar da diferença entre alterreferência, egorreferência e teorreferência, fixando a verdade na teorreferência, segundo a qual “Deus é a única referência para a vida autêntica, isto é, para o verdadeiro autoconhecimento” (p. 195), Jonas Madureira cita integralmente o poema Wer bin ich? [Quem sou eu?], de Dietrich Bonhoeffer, escrito na prisão, em 18 de julho de 1944. Esse poema é magistral ao expressar que somente encontramos paz na autenticidade do conhecimento de Deus. Tão avassalador quanto o poema é o comentário de Jonas sobre Jeremias 18.1-6. Sinceramente, não tem como não se render em adoração a Deus lendo essas páginas do livro.

O final do capítulo é como uma peça preciosa, de enorme valor, à qual queremos sempre voltar os olhos para admirar sua beleza. À parte a destreza discursiva de Jonas Madureira, sua elaboração do que denomina “gramática da antropologia bíblica” (p. 204-247) é de tirar o fôlego. Aqui, evidencia-se a influência do neocalvinismo holandês, especialmente de Herman Dooyeweerd, ao centrar a natureza humana, em contraste à filosofia moderna, não na razão ou no intelecto, mas no coração, e demonstrar claramente quão diferente é a abordagem bíblica acerca da natureza humana, diversamente do dualismo decorrente da influência platônica na filosofia ocidental, ensinando que se quisermos buscar uma definição bíblica de quem somos, devemos considerar que somos alma, coração, carne e espírito.

Caminhando para a conclusão, após aprender biblicamente sobre a possibilidade de conhecer Deus, saber quem é Deus e quem somos nós mesmos, o autor denuncia o que chama de “traição dos teólogos”, que consiste em “insubmissão à cosmovisão cristã”, podendo ela ser uma traição ou uma deserção: “um teólogo se torna, por um lado, um traidor não porque ele é cultural ou politicamente engajado, mas, sim, porque sua mente já não se submete totalmente à cosmovisão cristã; por outro lado, o teólogo se torna um desertor não porque meramente defende a ortodoxia com unhas e dentes, mas, sim, porque sua mente já não se submete totalmente à cosmovisão cristã” (p. 250-251). Como é urgente a denúncia feita por Jonas Madureira! Não se preocupe se achar que precisa saber melhor do que ele está falando ao se referir a “cosmovisão cristã, poi o conceito “cosmovisão” é trabalhado de forma lúcida, prática e simples, fornecendo excelentes indicações de literatura para aprofundamento no assunto (p. 266-285).

Em todo o livro, a quantidade de citações de teólogos brilhantes é enorme, sejam eles reformados ou não, bem como de grandes nomes da tradição filosófica, desde os mais famosos até aqueles não tão conhecidos. Quer por meio de citações diretas ou por meio de recomendações de leitura para aprofundamento, o autor demonstra profunda habilidade e domínio da filosofia e da teologia. Não deixe passar desapercebidas as preciosas recomendações, explicações e complementações feitas em notas de rodapé.

Qual a melhor forma de terminar uma teologia feita perante Deus, em segunda pessoa? Descubra lendo o livro. Sua conclusão é ao mesmo tempo surpreendente e óbvia.

Leia Inteligência Humilhada e se deixe ser ensinado, impactado e inundado pelo amor divino revelado em Cristo. Deixe-se ser humilhado pelo conhecimento de Deus. Com certeza Inteligência Humilhada é um livro que não dá para passar desta vida para a próxima sem ler.

Resenha por João Guilherme - Box95


 
 
 

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