Raízes Bíblicas da Masculinidade - por Igor Miguel

Raízes Bíblicas da Masculinidade - por Igor Miguel

Por Box95 | Um Clube de Assinaturas Cristão!      20/05/2019 23:09:04    
Uma das críticas que tenho à nossa língua é o uso do termo “homem” no sentido de “humanidade”. Antes que alguém pense que esse é um desconforto inspirado em ideias feministas, saiba que ele vem da Bíblia. No hebraico há palavras específicas para “humanidade”, “homem” (masculino) e “mulher”. O termo “homem” nunca é utilizado no sentido de “humanidade” ou “ser humano”, como eventualmente fazemos em português. De fato, o sentido duplo de “homem” em português pode ter contribuído para um imaginário de que o “macho” era solitário e depois veio a “fêmea” para resolver esse problema, afinal, Deus disse “Não é bom que o homem esteja só” (Gn 2.18).
 
Quando comecei a estudar a Bíblia Hebraica, veio a descoberta de que o termo Adão (adam) é traduzido de maneira alternada. Algumas vezes, referindo-se ao nome de um personagem, em outros momentos, referindo-se à criatura feita à imagem de Deus, ou seja, o primeiro exemplar da humanidade.
 
Diante disso, voltemos ao texto acima citado. Nele não encontramos “homem” no sentido “masculino”, mas a expressão hebraica “adam” [אדם]. Com efeito, não dá para simplesmente traduzir o texto como “Adão”, o adequado seria “ser humano” ou “humanidade”. A confusão está na narrativa poética de Gênesis, pois o termo “homem” em sentido “masculino” - “ish” [איש] – não é apresentado inicialmente, isso só acontece no verso 23, antecipado por “ishah” [אשה], o termo hebraico para “mulher”. Explico as implicações.
 
Se um leitor do hebraico se deixar conduzir naturalmente pela narrativa da criação do ser humano e depois chegar à distinção homem/mulher, ele verá que esta última surge como um elemento surpresa. Não dá para dizer que Adão era homem (ish) antes da introdução da mulher (ishah) na narrativa. Essa é uma informação exegética importante na compreensão bíblica da identidade masculina.
 
Só sabemos que Adão era “macho” a posteriori, ou seja, porque lemos a narrativa já sabendo onde ela vai desaguar. Mas, se nos colocarmos de maneira ingênua diante do texto, a identidade masculina emerge como uma surpresa ante o aparecimento da identidade feminina. Parece lógico, identidade é sempre relacional, exige critérios de comparação. Sem a presença de ishah (mulher) não seria possível discernir ish (homem).
 
Enfim, o problema da solidão na narrativa bíblica não era do masculino, já que a masculinidade sequer era discernível. Ela dependia da presença feminina. A solidão da humanidade não é boa, não do homem. Deus não está fazendo a “mulher” da costela do “macho”, mas da própria humanidade, até então existente em solidão. No original: “E a costela que o Senhor Deus tomara do homem [adam], transformou-a numa mulher [ishah] e lha trouxe.” (Gn 2.22). Veja que após esse verso, emerge o ish, o homem em sentido estrito: “Ela será chamada mulher [ishah], porque do homem [ish] foi tomada.” Ou seja, a particularidade masculina só é discernida e identificada na particularidade do feminino, e vice-versa. Somente na unidade dessas particularidades que se pode identificar a humanidade.

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